segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Supérfluo.

Acordei antes do despertador já com os raios de sol invadindo timidamente a brecha entre o blackout do quarto. Faltavam dez minutos para o horário de levantar, mas como de costume, minha cabeça já estava fervilhando com pelo menos duas músicas ao mesmo tempo, o que eu precisaria fazer no trabalho, querendo saber se choveria na quarta e alguns diálogos com personagens que nem imagino quem sejam. Apesar do sol, estava bastante frio e precisei vestir minha calça de lã e a jaqueta mais quente que tenho.

Desci para tomar o café da manhã, coloquei o leite para esquentar no micro-ondas e depois de piscar, enxergava que no lugar da geladeira havia uma mesa de mármore; no lugar das estantes com os pratos e copos, uma biblioteca com livros que não conseguia reconhecer pela lombada; no lugar do fogão e da pia, uma luminária destacando um divã onde fui convidado a sentar.

Prontamente comecei a contar da minha aflição com o turbilhão de pensamentos durante todo o tempo que não estou realmente entretido com alguma coisa, da necessidade de estar recebendo qualquer tipo de informação ou interagindo a todo o instante, mas fui interrompido, dizendo que não era isso que importava.

O interesse era pela minha memória, ou melhor, pela falta dela. Expliquei que às vezes tinha dificuldades em acompanhar seriados quando ficava uma semana sem assistir um episódio porque não lembrava dos detalhes, apesar de compreender o contexto em que as coisas estavam acontecendo; que precisava anotar imediatamente algo fora da rotina que deveria ser feito para não esquecer segundos depois, mas fui interrompido mais uma vez.

Então percebi que o interessante da minha memória era a capacidade de esquecer as lembranças ruins, principalmente aquelas envolvendo outras pessoas. Expliquei que não consigo guardar rancor das pessoas que foram boas na maior parte do tempo comigo e por algum motivo, qualquer que seja, afastaram-se depois de uma briga; prefiro ocupar o espaço mental com os sorrisos ao invés das lágrimas. Não consigo guardar rancor das pessoas que jamais foram próximas, mas não gostavam de mim e tentaram me atingir. Sei que sou uma pessoa difícil até que se forme alguma intimidade, compreendo elas.

Reparei que o velho senhor que cortara minha fala estava sorrindo debaixo da barba grisalha. Pensei em continuar o monólogo, mas escutei o bipe do micro-ondas avisando que os quarenta e cinco segundos haviam passado. Pisquei e a cozinha tinha voltado ao lugar. Era hora de começar mais uma semana, de olvidar do supérfluo.

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