Sentado num banco de madeira, numa
pracinha com algumas árvores e um chafariz jorrando timidamente água para o
alto em direção ao sol que começava a se por, estava um homem de meia idade
calçando seus chinelos e vestindo uma simples bermuda jeans com uma camiseta
verde sem estampas e etiquetas. Acabara de gastar um euro no pretzel feito pela velha senhora que
vestia seu avental xadrez vermelho e branco e desejava com muito entusiasmo um
bom apetite aos seus clientes. Segurando o lanche com o guardanapo em que vinha
servido, observava os idosos jogando damas enquanto suas esposas atiravam as
migalhas de pão do dia anterior aos pombos, que depois voavam para todos os
lados num estardalhaço quando as crianças disparavam, aos risos, numa corrida
em direção das aves.
Satisfeito com a pequena refeição
e com a cena que presenciara, percebeu que começara a anoitecer e resolveu
tomar o rumo para seu apartamento. Passando pelas ruas, distraído com uma
borboleta que resolvera descansar as asas sobre seus ombros, esbarrou numa madame
que se equilibrava nos saltos cravejados de diamantes e desfilava seu vestido
vermelho de grife enquanto carregava sacolas da Louis Vuitton e Calvin Klein.
Prontamente ajuntou as compras da mulher que gritava sobre o tanto de dinheiro
que gastou com suas aquisições, comparando os “trapos” – assim disse ela – que
o homem vestia.
Com os tímpanos latejando,
continuou seu caminho até se deparar com o que parecia ser uma nova lanchonete
no bairro, mas que ostentava uma fachada com detalhes em dourado e um letreiro
em tamanho garrafal: Gourmet. Espiou
pelo vidro e viu por cima do balcão uma tabela com os preços. O que mais lhe
chamou atenção foi o pretzel por dez
euros. “Imagine o tamanho que deve ser!”. Mas sua empolgação logo acabou ao ver
um garçom tirando de sua bandeja um prato enorme, todo enfeitado com pó de
canela e riscos feitos com algum tipo de molho e um pretzel que não dava metade daquele comprado na pracinha. Percebeu
ainda que o garçom serviu a iguaria sem sequer forçar um sorriso de canto de
boca e virou as costas para a jovem, que com a mesma velocidade que
desembainhou os talheres, sacou seu celular da bolsa e fotografou o prato.
Seguiu seu caminho e ao entrar no
prédio, percebeu que uma pequena confraternização estava acontecendo no salão
de festas e resolveu checar. Várias pessoas reunidas, música tocando, duas caixas
de pizza e algumas cervejas, todas intocadas em cima da mesa. Ao invés de
comerem, beberem e se divertirem com histórias engraçadas, o homem observou que
estavam todos com seus celulares apontados para cima, excomungando sobre a
ausência de sinal para curtir as fotos do pretzel
gourmet postada há pouco tempo atrás.
...
Que texto incrível! É absurdo como muitas pessoas estáo perdendo o bom senso, deixando de apreciar as melhores coisas. É triste sair com alguém, esperando uma conversa agradável, e perceber que um celular tomou o lugar dos assuntos. As pessoas estão esquecendo de valorizar o que realmente traz felicidade, estão supervalorizando o supérfluo, descartável.
ResponderExcluirParabéns pelas palavras, como sempre!
Parabéns, você escreve muito bem!
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